Oi, gente!
Por enquanto, vou fazer minhas atualizações nessa versão do Pepita que tem lá no Fubeca, olha:
Vou ver se me acostumo por lá! O Fubeca é a nova rede social da UFABC e a proposta é bem legal!
Vejo-te por lá então!
bjos
Oi, gente!
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Vejo-te por lá então!
bjos
Olá! Hoje vou postar aqui um pouquinho sobre uma música que adoro! Cotidiano, de nada mais, nada menos que Chico Buarque de Holanda, o cara responsável por vários dos meus orgasmos auditivos.
Veja a letra e o vídeo. Vou comentar alguns aspectos básicos que já dão outra cara para a música:
O nome da música já diz sobre o que fala: cotidiano. É o cotidiano de uma pessoa comum, um homem simples, trabalhador, pai de família, parte do operariado.
O primeiro ponto é a batida da música; do começo ao fim, podemos ouvir o toque do relógio, o tic-tac típico, denotando a passagem do tempo. O tempo passando, ele começa a contar sobre o seu cotidiano. As estrofes da música, exceto uma, são começadas por ‘toda’, ‘todo’: ‘todo dia’, ‘toda noite’. Aqui o Chico utiliza uma espécie de metonímia do ‘um pelo todo’, ou seja, ao longo da música ele conta sobre apenas um dia na vida do personagem, porém não é preciso contar sobre os outros para saber como é essa vida, já que ‘todo dia’ ocorre sempre da mesma forma. É um cotidiano marcado por uma rotina sem fim.
Vejo a divisão da música em três partes: as primeiras 3 estrofes, as 2 seguintes e a última. Daqui a pouco você entende por quê.
1ª estrofe
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Já de cara, ela faz ‘tudo’ ‘sempre’ igual ‘todo’ dia. Não é uma redundância? Ele já marca logo no início a incessante rotina da vida do personagem. A música começa no começo do dia, logo de manhã. Boa moça que é, a Amélia esposa dele, acorda antes, escova os dentes, prepara o café e depois acorda o marido com um ‘sorriso pontual’; aquele sorriso satisfeito apesar da vida comum. A boca de hortelã é justamente pelo aroma do dentifrício (nome bonito, né? É o nome completo da pasta de dentes). Esse ‘me sacode’ é mesmo um ‘acorda!’, pois o personagem está dormindo, absorto em seus sonhos, onde não há mesmice, mas ele precisa acordar para a rotina, esquecer os sonhos por enquanto e repetir os passos de ontem e de amanhã.
2ª estrofe
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Juntos na rotina do dia a dia, parece que eles não têm mais assunto, não há novidade e o papo é o mesmo de sempre, ela só diz que é pra ele se cuidar, o que toda mulher diz; aqui temos pistas de que muitas outras mulheres vivem essa rotina. Depois do café então, ela o dispensa e vai para os seus afazeres domésticos.
3ª estrofe
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Vemos aqui um lampejo de consciência do personagem. Depois de passar a manhã trabalhando, vai todo cansado almoçar, ‘pensa em poder parar’, ‘em dizer não’. Mas a rotina que ele leva o prende, é um lixo de vida, é a vida da massa. Faz parte daquela reclamadinha básica que todos damos todos os dias, aquela reclamadinha tradicional, que aprendemos com os mais velhos na infância e que passaremos para os nossos filhos. Depois ele vê que não tem jeito, que ‘por enquanto’ tem que continuar com a massacrante rotina e vai comer seu feijão, componente frequente do prato do brasileiro. Veja que a própria expressão ‘arroz-com-feijão’ já denota mesmice.
Essas primeiras três estrofes são marcadas por uma batida mais calma da música, o tempo vai passando devagar. Não bastasse a rotina, o tempo insiste em não passar.
Nessas estrofes o autor utiliza o gosto da boca para marcar o horário do dia em que estão, ‘boca de hortelã’, ‘boca de café’, ‘boca de feijão’. Perceba que ao término de cada uma dessas estrofes, a música é marcada então com o badalar do relógio com a passagem de um período do dia, acordar, café, almoço.
4ª estrofe
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Como era de se esperar (oh, previsível rotina), a Amélia já está a postos para receber o cara que paga todas as contas (e manda, e detém o controle remoto da TV).Vê-se aqui o conformismo da nossa querida Amélia; ela ficou o dia inteiro em casa, lavando roupa, limpando a casa, fazendo o jantar, mas quando seu marido chega, ele a resgata de uma parte de sua rotina. Isso porque a rotina dela é dividida em duas partes: quando está com o marido, servindo-o sempre, e quando está sem ele. Então quando ele chega do trabalho, a primeira parte da rotina dela acaba, e quando algo ruim acaba, sentimo-nos aliviados, mesmo que seja para começar outra rotina (ruim) incessante, daí a tamanha paixão e anseio para beijar que ela demonstra, na verdade é alívio.
5ª estrofe
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Ela não quer ficar sozinha, a rotina já é muito ruim, imagina só ficar na rotina sem ele? Amélia se entrega por inteiro; pede que ele não a deixe, jura todo seu amor, demonstra inclusive fisicamente, apertando-o pra ele ‘quase sufocar’, mordendo-o, num desespero latente. Veja que esse sufocar tanto denota a insegurança dela quanto o sentimento dele, quase sufocado por essa maldita rotina!
Nessas 4ª e 5ª estrofes, a batida da música já está mais rápida, a marcação do final de estrofe com o badalar do relógio já não ocorre mais. Isso mostra que o tempo está massacrando, as horas passam e nem se vê, cansa-se apenas.
A música não acaba na noite, acaba de manhã; o autor termina a música colocando uma última estrofe igual à primeira, fechando o ciclo da rotina, enfatizando que não basta dormir e acordar num dia diferente e que tudo mudará, pois não adiantará, o outro dia será igual ao anterior.
Perceba também que não há refrão na música, ou seja, essa rotina que engole não tem exceção.
Bem, é isso. É uma análise superficial, mas espero que gostem e consigam olhar essa maravilhosa música com um olhar um pouco mais claro.
É incrível como tantas coisas na vida trazem mensagens muito além do que se pode ver. Junte a isso um pouco de imaginação. Booom!
Uma noite acordada, uma aula chata, sono, um poema.
Noit’dia
por Pepita
Quem me dera não ter sono a noite inteira
E não parar durante o dia!
Todos dormem na noite tranqüila.
Ouço apenas os eletrodomésticos
Numa periódica energia.
O carro que passa,
O móvel dilata,
Um bicho que chia.
Ah, como a noite é calma!
Não queria fechar meus olhos e deixá-la passar.
Queria aproveitar!
Passar o tempo que passa fazendo não-sei-o-quê-lá!
O que importa?
Teria, somando a noite com o dia,
Mais dia que um dia inteiro.
Porque a noite vai devagar pra quem fica com ela,
E vai rápido pra quem não a vê:
Castigo.
Ah, noite! Troca com o dia!
Dormirei com o barulho do claro,
Acordarei com a calma do escuro!
Como eu queria!
Em vez disso, a noite corre.
Corre pro Sol.
Quando o Sol encontra a noite,
A luz invade.
Ele a apaga de claro e imensidão.
Ela queria isso,
Entrega-se cheia de segredo, escuridão.
Deixa-se pintar de um azul, branco,
Um amarelo queimado.
O que estava nela é apagado,
Abrindo espaço pra depois das seis.